É o oposto extremo do teatro musical do Abril, poucas quadras abaixo, na Brigadeiro Luís Antônio. A direção musical de Pedro Paulo Bogosian é solta, não constrange, não limita _e dá a deixa para que todo o espetáculo se desenhe assim.Trata-se de "Tieta do Agreste", no teatro Brigadeiro. Nem sempre atinge o mais bem-sucedido dos resultados, como na coreografia, que só dá as caras quando as poucas bailarinas de fato estão em cena, sem coro. E ainda assim ergue quadros memoráveis, caso do bordel em São Paulo.
Até cenas de canto, em menor número do que se espera num musical, podem escorregar nos limites de voz. Mas pouco importa, não com Pedro Paulo, ao vivo, em uma extensão do palco, com seu sorriso aberto para a ação diante dele, sem se deixar obcecar e desviar pelo detalhe.
Devo ter feito parte de um de seus primeiros laboratórios musicais, muito jovem, três décadas atrás, os dois na mesma classe de teatro. Ele criou e dirigiu. Lembro pouco, mas tenho claro que Pedro Paulo já era assim, sereno e de olhar carinhoso. E criativo.
Acompanhei muito da peça pelo seu olhar, estava perto da banda. Alegrava-se com a comédia de Neusa Romano e Maria do Carmo Soares e se admirava de reações da platéia, obviamente envolvida pela apresentação, em passagens ao que parece inusitadas.
O público é atração em si mesmo. É também o oposto do Abril, mais popular, com respostas espontâneas e quase impertinentes ao que ocorre no palco. Reage mais à nudez dos homens do que à das mulheres, aos gritos, como em auditório.
Inspirada em Jorge Amado, a peça não desperdiça as sugestões de sensualidade. Concentram-se em Tânia Alves, que faz a prostituta que retorna à cidade, mas não só. Não vi Emanuelle Araújo como Estela, mas Vyvian Albouquerque, no papel, pelo que indica o programa, foi delicada e envolvente.
Não posso dizer que tenha me empolgado pelos cenários decorativos ou pelos figurinos irregulares, mas as letras das canções, tão centrais no gênero, assinadas pela diretora Christina Trevisan e por Pedro Paulo, são inteligentes e tratam seu tema de forma nada ingênua.
É quase um musical cínico, apesar de toda a exaltação da lubricidade, tirada do escritor. Foi o que me fez sair do teatro pensando por que não se tem ainda um prêmio, ao menos como categoria separada, para o teatro musical. Não é por falta de produção ou de qualidade.
Fonte: Blog de Teatro


















